Museu Samora Machel inaugurado no Botswana

Os Presidentes de Moçambique, Filipe Nyusi, e do Botswana, Makgweetsi Masisi, eternizaram semana
finda a história e as relações de amizade que unem os dois povos, com a inauguração do Museu Samora Machel, em Lobatse, distrito de South East, a cerca de 70 quilómetros da capital do Botswana, Gaborone, onde o primeiro Presidente de Moçambique independente se hospedou, na viagem à Tanzânia, em 1963, para se juntar à Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).

Trata-se de uma infra-estrutura composta por quatro compartimentos, nomeadamente, casa-museu, bloco de exposição, restaurante, cozinha e área administrativa, avaliada em 300 mil dólares norte-americanos, desembolsados pelos governos de Moçambique e do Botswana.

Tanto o Presidente Filipe Nyusi, como o Presidente Makgweetsi Masisi afirmaram nos seus discursos que o museu trará ganhos para o município de Lobatse, não apenas no turismo tradicional histórico, mas também no turismo cultural, esperando-se que o lugar seja um cartão-de-visita de turistas nacionais e estrangeiros.

Os dois estadistas olham para o museu como um monumento que recorda os libertadores de África, um local histórico para lembrar a nova geração sobre onde começa a história da região e do continente. Filipe Nyusi, que terminou ontem uma visita de Estado de três dias ao Botswana, usou a ocasião para agradecer ao povo tswana, em especial de Lobatse, e à família Kaboasile, que recebeu Samora Machel e outros nacionalistas, que ali encontraram acolhimento e esconderijo, uma vez que eram perseguidos pela PIDE.

“Nesta casa, depois de peripécias atribuladas, encontraram o alento enquanto aguardavam pela criação de condições para continuarem com a viagem para a Tanzânia”, disse Filipe Nyusi, sublinhando que o povo moçambicano reserva para sempre a sua
vénia a todos aqueles que apoiaram os
libertadores da pátria moçambicana.
A importância deste museu,
segundo Filipe Nyusi, é que vai recordar à nova geração o preço alto
que o povo tswana e o Botswana
pagaram, ao prestar apoio à luta de
libertação na África Austral e, em
particular, Moçambique, traduzido
em bombardeamentos e privações
económicas, exercidas pelos regimes opressivos que consideravam
a emancipação dos povos uma
ameaça à sua existência.
“Hoje, a região está livre e a
prosperar para o bem dos seus povos. A visão dos seus líderes icónicos, o Presidente Seretsi Kama, do
Botswana, Samora Machel, de Moçambique, Julius Nherere, da Tanzânia, Kenneth Kaunda, da Zâmbia, e Agostinho Neto, de Angola, foi de longo alcance que, compreendendo que a independência política só podia ser sustentável com a emancipação económica, enveredarampela criação da SADCC, que esteve na génese da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral”, sublinhou.

Tanto no exterior como no interior do museu estão estampadas imagens que recordam a história de Samora Machel, desde jovem enfermeiro, na Tanzânia, e de todos os ícones defensores da liberdade e bem-estar dos povos da região, como Juluis Nherere, Kenneth Kaunda e Seretsi Khama.

Extractos de discursos de Samora Machel também estão estampados no museu como “A nossa amizade foi criada na luta, fundida em aço pelo sangue e, por isso, é indestrutível. A luta continua!”. A inauguração do museu contou com a presença de Samora Machel Júnior, filho do Presidente Samora Moisés Machel, em representação da família, do general Matias Boa, companheiro de viagem e de trincheira de Samora Machel, e de altas individualidades dos dois países e população de Lobatse, que acorreu ao local para testemunhar o momento, com danças tradicionais em representação da cultura local. Samora Machel Júnior agradece apoio dado ao pai.

Na sua intervenção, Samora Machel Júnior começou por agradecer aos dois governos pelo museu, que vai contribuir para a preservação e divulgação de um dos capítulos da história, propiciando a sua partilha e apropriação pelas gerações vindouras, particularmente os jovens, a seiva da nação, como os apelidou o Presidente Samora Machel.

Segundo Samora Machel Júnior, que nasceu em plena luta armada, foi há 59 anos que o seu pai esteve em Lobatse, depois de dias antes abandonar Moçambique, para juntar-se à FRELIMO, na Tanzânia. “Aqui neste local Samora Machel foi acolhido e protegido pela família Kaboasile, a quem ficou eternamente grato por lhe ter garantido passagem segura para Dar-es-Salaam”, disse. De acordo com Samora Júnior, para o seu pai, Lobatse, em geral, e, em particular, Kaboasile permanecerão como as raízes de um vínculo que a partir de 1975, quando foi declarada a Independência de Moçambique, serviu de base para as relações políticas e económicas, sociais e de solidariedade que floresceram entre Moçambique e Botswana.

“Se a família Kaboasile foi exemplo de solidariedade do povo ntswana, relativamente ao povo moçambicano, o primeiro Presidente do Botswana independente, Seretsi khama, viria a ser o político que Samora Machel admirava como diplomata sábio na condução do seu país à independência, dirigente que soube manter o povo unido em condições difíceis de pobreza impostas pelos interesses geopolíticos do seu colonizador”, declarou.

Para Samora Machel Júnior, Khama foi o Chefe de Estado que se destacou por uma governação transparente, preservou a soberania do seu país sem violar o princípio das nações africanas de apoio à luta dos povos de Zimbabwe e África do Sul contra os regimes minoritários e racistas da região. Por seu turno, o general Matias.

Boa agradeceu à família Kaboasile por tudo o que fez ao acolher-lhe juntamente com Samora Machel em sua casa, partilhando o que tinha. “Levantei-me para agradecer aos governos de Moçambique e do Botswana pelas boas relações que criaram e sempre souberam acarinhar. Aqui foi para nós segunda casa”, disse, sublinhando que ali foram defendidos da prisão da PIDE que rondava em torno deles.

Matias Boa acrescentou que o que a família Kaboasile fez por ele e Samora fez também por muitos moçambicanos. Recordou que na década de 60 centenas de moçambicanos e sul-africanos passaram pelo Botswana, na sua fuga contra o colonialismo e discriminação racial.