Muitas desistiram da profissão

HELENA Manuel é cobradora no transporte público, na rota Baixa-Zimpeto, e diz ser desafiante falar da sua profissão, devido a condicionalismos e preconceitos, sobretudo para as mulheres.
Ela está nesta actividade há três anos e diz sentir-se confortável, embora exija um pouco mais de si. Helena trabalha em dias intercalados. Vive em Marracuene e seu horário laboral começa às 5.00 e vai até às 22.00 horas. Para ela, ser cobradora de transporte não significa apenas exigir dos passageiros o valor da viagem. Há também muito trabalho por detrás.
“Muitas desistiram porque achavam que é só cobrar às pessoas, mas isso não garante rendimento, que é aplicado nas despesas operacionais do autocarro, inclusive a nossa (tripulação) remuneração”, disse.

Questionada sobre o que se deve fazer para garantir rendimento, Helena diz ser necessário organizar os viajantes dentro do autocarro, de tal maneira que consiga encaixar o maior número possível.
Desta forma consegue render mais e fazer a receita exigida pelo patrão, o que nem sempre era possível devido as regras que haviam sido impostas pela pandemia desde 2020.
“Alguns passageiros acham que somos mal intencionados, e não percebem que fazemos aquela “confusão” de arrumação das pessoas para continuar a garantir a vaga de emprego na empresa, pois quem não consegue atingir o valor mínimo exigido, não tem como continuar”, relatou.

Para a cobradora, as exigências e condicionalismos levaram a que muitas das suas colegas abandonassem a profissão.
Primeiro, porque é impossível trabalhar em estado de gravidez, devido ao longo tempo que permanecem de pé, para além de terem que passar por entre passageiros apinhados.
Por outro lado, o cansaço resultante do trabalho fez algumas mulheres desistirem, para além de outras terem sido obrigadas a abandonar para preservar o lar ameaçado devido a hora tardia do fim da jornada de trabalho.
“Houve uma redução significativa de mulheres nos transportes de passageiros. Eu, em particular, tenho um marido compreensivo, talvez porque trabalhamos na mesma área, sendo ele motorista”, disse. A cobradora disse que apesar das limitações, sente que as mulheres são capazes, na medida em que são poucas as que desistem por não conseguirem se enquadrar.
“Muitas desistem por estarmos num país ainda masculinizado, onde é ‘normal’ um homem chegar a casa às 23.00 horas, mas isso torna-se problema quando a mulher chega a essa hora”, disse. Helena Manuel tem três filhos. Os dois mais velhos garantem a manutenção da casa, cozinham e cuidam do mais novo, de nove anos.
Apesar de se sentir bem na profissão que exerce, a cobradora diz que sempre sonhou em ser professora