Armando Guebuza: “os meus camaradas não vão conseguir mi calar”.

Numa cerimónia para assinalar os seus 80 anos, o antigo Presidente moçambicano afirmou esperar que a justiça diga por que o filho está preso e avisou que “se o colonialismo português não conseguiu calar-nos, vencer as nossas convicções, não são os nossos camaradas que vão conseguir fazê-lo”.

O antigo Presidente moçambicano Armando Guebuza afirmou que os seus “camaradas” não o vão fazer calar e que continua à espera que a justiça diga por que o filho, Ndambi, está preso.

Estas afirmações foram feitas no simpósio “Armando Emílio Guebuza, uma estória de auto-estima”, realizado na tarde de sexta-feira, 20, em Maputo, para assinalar o seu 80o. aniversário, com a presença de pesos pesados do partido no poder, Frelimo.

Na sua intervenção, Guebuza descreveu a sua participação na luta pela independência de Moçambique, destacou os ganhos da sua Presidência e descreveu o que chamou de “turbulências” por que passou a família.

O antigo Presidente apontou o dedo à justiça, da qual diz esperar saber por que o filho está preso.

“Temos o Ndambi, que a Justiça não explica porquê está lá. Mas fizeram de propósito, para ele não estar cá connosco. A Valentina foi nos arrancada nesta confusão que levou agora o Ndambi à prisão. Mas nos aguentamos. Somos fortes”, afirmou Guebuza, que, depois, assestou as baterias aos próprios colegas de partido.

“Mas levantamos. Nós aguentamos. Somos fortes. Se o colonialismo português não conseguiu calar-nos, vencer as nossas convicções, não são os nossos camaradas que vão conseguir fazê-lo”, disse Guebuza, quem, apesar do que chamou de “turbulências”, admitiu ser um homem de sorte ao chegar a essa idade.

Em jeito de agradecimento à vida, ele disse que em 80 anos somou experiências que o fortaleceram e agradeceu “o carinho do nosso povo, dos meus amigos e camaradas, da minha família e, sobretudo, o da minha companheira (49 anos de casados que juntos passamos por tudo e saímos mais fortes) são, em todo este processo, um tónico renovador”.

Sonhos realizados e erros

O antigo Chefe de Estado fez um recorrido pela sua actuação pública desde a participação em movimentos cívicos, na luta clandestina e no que chamou de “acção directa”.

E destacou os sonhos realizados e os erros.

“Pudemos, neste percurso, testemunhar a concretização de sonhos de muitas gerações anteriores de moçambicanos de verem o seu solo pátrio livre da dominação colonial, de construir com liberdade a nação ousada dos seus sonhos, de que são donos únicos e legítimos, sem receio de cometer seus próprios erros, mas também com a ousadia e coragem de corrigi-los, porque cometer erros sem os corrigir não faz sentido”, afirmou Armando Guebuza, para quem a libertação do país “foi e continua a ser a missão mais exaltante que a nação delegou à minha geração”.

Ele acrescentou que “aprendemos que a esperança e o bem-estar de Moçambique e dos moçambicanos, do Rovuma ao Maputo e do Zumbo ao Índico, devem ser a causa e a razão principal do nosso combate”.

Ao considerar que a história deve ser usada para corrigir e evitar males no presente e no futuro, ele apontou a auto-estima e a unidade nacional como os faróis da “nossa” acção política e defendeu a necessidade de se engrandecer os feitos de quem deu o sangue para a libertação da pátria através de acções.

Honra aos combatentes

“É terrível lembrar dos camaradas que partiram. Samora Machel já não está connosco. Alguns aqui não o conheceram. [Importa] lembrar de Eduardo Mondlane, Paulo Kankhomba, Josina Machel, todos partiram. Depois vem algum jovem, enérgico jornalista, e pergunta: é este o sonho de Samora? Mondlane?”, afirmou o antigo Presidente que pediu que eles sejam honrados.

“Não brinquemos com a história deles. Pelo menos, honremos a sua história”, disse.

Presidente da República de 2005 a 2015, o terceiro Chefe de Estado moçambicano passou em revista algumas acções dos seus governos que, segundo ele, “através da política dos sete milhões, fomentamos a participação de todos, a partir do distrito, na economia e no sistema financeiro, porém o edifício maior de todos nós foi o resgate da nossa auto-estima”.

“Regozijamo-nos quando ouvimos o nosso povo recusar um patrão. Não queremos mais donos. Nós somos os donos de nós mesmos”, rematou Armando Guebuza.

O simpósio foi organizado pela Fundação Armando Emílio Guebuza na Galeria, no Porto de Maputo, às 13:00 horas, e analisou vários temas como “O homem e a sua família”, “Marcas e marcos da clandestinidade”, “Na luta armada com Armando Guebuza”, “A auto-estima como fio-condutor”, “Negociar a paz com Armando Guebuza”, “A prática diplomática com Armando Guebuza”, “A luta contra a pobreza na perspectiva de Armando Guebuza”e “Armando Guebuza, entre amores e desamores”.

Também onteom o Presidente Filipe Nyusi felicitou o seu antecessor num comunicado pelo seu aniversário.

“A sua trajectória de vida confunde-se com a história de Moçambique, que hoje se ergue orgulhoso, graças à entrega de gerações e de compatriotas do passado e do presente, sobretudo o inolvidável contributo dos libertadores da terra de que o Camarada Presidente é parte”, escreveu Nyusi “em nome do povo moçambicano, no meu próprio e da minha família”.