NGUNGUNHANE: Um património de Moçambique e Portugal

A S representações artísticas sobre Ngungunhane, o último rei do Império de Gaza, apresentam este monarca como uma figura que deixou de ser apenas herói moçambicano. Abordam-no como alguém que passou a ser celebrado em Portugal, onde recentemente foi inaugurada uma estátua em sua homenagem, em Angra do Heroísmo, terra do seu exílio e morte, na sequência da sua prisão, em 1895, pelo exército português, durante a luta pela ocupação do território moçambicano.

Este é um dos principais argumentos apresentados pelo pesquisador italiano Andrea Vacha no seu projecto de doutoramento “Era Uma Vez Mundugaz, Narrativas de Ngungunhane em Moçambique e Portugal (1890- 2020)” que recentemente foi objecto de comunicações por si
apresentadas na Universidade Pedagógica (UP) de Maputo e no Instituto de Investigação Socio-Cultural (ARPAC).

A investigação iniciou em 2014 depois de Vacha encontrar alguns vestígios de Ngungunhane e Império de Gaza, na província com o mesmo nome, sobretudo em Chaimite e Mandlakazi, nomeadamente campanhas ligadas à ocupação portuguesa, livros de história e de ficção. A pesquisa abrangeu Maputo, Inhambane e Manica. O território do Império estendia-se da actual província de Gaza até Mossurize, em Manica.

Curiosamente, contou, o início do trabalho coincidiu com a publicação, em 2015, de “Mulheres de Cinza”, de Mia Couto, primeiro livro da trilogia sobre Ngungunhane “As Areias do Imperador”. Portanto, “foi numa altura em que este assunto ganhou algum interesse”.

Ainda assim, Vacha defende que para uma figura como o “Leão de Gaza” era necessário haver mais fontes de informação. “A ausência de testemunhos autobiográficos escritos ou gravados favorece a instrumentalização de características duma determinada personagem histórica”, esclareceu.

Referiu que muitas vezes a sua análise resulta na omissão de vários elementos importantes para a sua compreensão e que, por questões culturais, estas situações são encontradas em diversos estudos sobre outras personagens africanas, da Oceânia e América pré-colombiana. Deu o exemplo de figuras como Chaka Zulu, da África do Sul, e Atahualpa, do Império Inca, do Equador.

Acrescentou ainda que esta constatação não possibilita o acréscimo de muita informação sobre os eventos históricos, que se limitam a revisitações previamente elaboradas.

Entretanto, consegue encontrar algumas vantagens neste processo, dentre elas o facto de se poder abordar um evento ou figura histórica de vários ângulos. “Permite também construir pontes (ou conflitos) historiográficos e uma história comparada entre várias nações, cada vez mais procurada na sociedade global”, comentou.